Milena Oliveira

Desejo

A obra Desejo partiu da retomada de outra obra Escrita secreta (2013), onde criei uma oração, intimamente registrada em códigos indecifráveis, pontos que formam desenhos desconhecidos, palavras que se relacionam com o transcendental, com o espiritual, com uma memória que não é descrita, ela toca o ilegível, o misterioso.

Nesta reapresentação da oração, remete tanto aos medalhões e relicários quanto às fotografias antigas de família, apresentadas na parede. Uma soma de impressões: a mão que comprime a argila e as agulhas que imprimem códigos pontuais de uma oração. Elas podem referir-se às posturas de elevação como gesto de entrega, humildade, bem como um pedido de piedade ou súplica, uma maneira de interiorizar suas qualidades de fé, de paz consigo mesmo. Uma comunhão entre o eu, o universo e o Deus ou forças vitais em que cada um acredita.

Esta determinação de ações que deixaram o rastro das mãos abertas sobre uma placa de argila ainda úmida, pode ser interpretada como uma maneira de estar em oração. Desta maneira, as transformações do modo de apresentação das mãos operam na percepção, agindo como impressões da memória sobre os materiais, consequentemente, de ressignificar o gesto de unir duas mãos, de interiorizar a alma, uma conexão íntima com a matriz de códigos que não sabemos ler, mas que significam desejos em ação.

Desejo , 2014-2015 cerâmica sobre vidrado 24 x 29 cm