Cartografias da incerteza
sobre os bordados de Milena Oliveira
Costuras, tecidos e bordados resultam de três operações com fios e fibras que, de modo artesanal ou manufaturado, acompanham a história da arte e vêm sendo recorrentes na produção contemporânea. A costura, mediante agulha e linha, pressupõe a junção de partes diferentes de pano, couro, casca ou outros materiais. A tecelagem é o entrelaçamento de fios ou fibras formando uma trama ou tecido. O bordado, que também utiliza agulha e fios, constrói com linhas uma forma sobre um tecido ou outro suporte material. Qualquer uma dessas técnicas oferece um amplo espectro de possibilidades artísticas.
Milena Oliveira começou sua pesquisa artística em 2010, conjugando desenho, cerâmica e fotografia. Da interlocução entre matrizes gráficas, a apropriação de objetos e registros familiares, a artista foi aprimorando uma grafia com agulhas na transferência de imagens para suportes de papel e argila. Nos trabalhos mais recentes, realizados entre 2020 e 2021, vem desenvolvendo uma escrita do cotidiano através de bordados de pequenas dimensões com breves inserções de aquarela, que reforçam um sentido de transparência, delicadeza e fragilidade em um contexto ao mesmo tempo pessoal e universal.
Cabe uma breve digressão da trajetória poética de Milena para apreciar diferentes aspectos de sua produção recente. Na primeira série de trabalhos, Relicários (2010-2011), em que explorava a fusão material de objetos pessoais (alguns deles orgânicos) com o modelado em argila, a artista definiu uma peça que denominou “objeto-personagem” – ela era como uma pílula, sem braços, com três pernas e um invólucro em seu corpo. Era uma nova realidade que, quimicamente, guardava uma lembrança da origem, mas visual e materialmente não podia retornar aos elementos constituintes antes do fogo. Havia uma consciência de materialidade destruída em favor da construção de algo novo, que se alimentava de uma memória tangível, porém, queimada e desintegrada.
Em seguida, a pesquisa da artista avançou para objetos oriundos de um processo duplo: por um lado, a divisão física do objeto-personagem em dois objetos menores, e, por outro, uma ação matricial de gravar as superfícies por meio do esgrafitado de imagens existentes e da transposição de fotografias de família. Apesar dos nomes sugestivos das obras, o processo novamente conjugava, de modo ambíguo, as ações de acrisolar e remediar as memórias. Na série seguinte, de escritas em papel japonês, a imagem se diluía em palavras ilegíveis que resgatavam lembranças através do desenho, instaurando uma nova narrativa não verbal.
Na retomada do suporte cerâmico de modo estilizado, Milena voltou a quebrar o objeto-personagem para configurar nichos menores, isto é, a ideia do relicário, então, como fragmento de uma casca maior. Enquanto a artista continuava desenvolvendo escritas ilegíveis e processos de fusão de imagens familiares, em uma introspeção que não deixava frestas para nenhuma relação invasiva de intimidade por parte do observador, a persistência da forma do objeto-personagem tornava-se cada vez mais instável. Finalmente, na fotoperformance Abrir pedras (2017), Milena fecha o ciclo com a destruição do objeto-personagem.
Todo o trabalho da artista apresenta um leitmotiv claro de memória familiar. Entretanto, o processo é menos de perpetuação de lembranças ou de construção de narrativas de culto e mais de iconoclastia da dor, de afirmação da fugacidade da vivência sem qualquer mitificação do passado. Milena assume a difícil tarefa de falar da memória sem fazer um inventário anedótico de acontecimentos. Usa a imagem desmontando qualquer narrativa das circunstâncias dos resquícios da vida.
Desde março de 2020, como tanta gente durante a pandemia, a artista começou a explorar o universo íntimo de sua casa. No isolamento social e ante a impossibilidade de praticar a cerâmica e os processos de laboratório inerentes aos trabalhos anteriores, Milena deu início a uma nova fase de expressão artística. Após processo demorado e complexo de mais de uma década de gestação e destruição daquele objeto-personagem, a artista passou a trabalhar com bordados e deslocou o âmbito das lembranças familiares para o da vivência de um cotidiano confinado.
Os últimos números e Risco (ambos de 2021) são trabalhos síncronos, uma instalação e uma performance emergentes do desespero no auge das estatísticas trágicas da covid. Ambas as obras poderiam ser uma homenagem aos mortos pelo vírus, porém, em sua delicadeza visual, afirmam-se como denúncia necessária da inoperância que pautou a gestão da pandemia no Brasil.
Os trabalhos Na corrente, Não posso plantar o passado e Tempo Sonho Benzer (2021) articulam uma presença que se aproxima do protagonismo do outrora objeto-personagem, agora deslocado para a cama, protegida por diáfanos dosséis. Ritmos de linhas revelam a contagem de um tempo incerto, que remete às marcas primevas rupestres e se confunde com os dias assinalados nos muros das prisões – na pandemia, de fato, todos nos tornamos prisioneiros.
O tema do leito continua em Decifrável (2021), que pode ser lido como primeiro ensaio para o repertório de Uma cama por dia (2020), saga que parte dessa peça de mobiliário como estrutura incompleta até constituir uma espessura de registro diário da cama. De novo, evoca-se o processo de fragmentação do objeto-personagem presente nas séries anteriores à pandemia: nas obras De vagar e A vida é boa (2021), a cama passa a ser desmembrada em seus elementos. Apenas em O que significa sonhar com cachorro? (2021) aparece explicitamente a referência à dimensão onírica como elemento intangível, porém, fundamental, do âmbito do leito.
Em Deitar sobre o afogo (2020), a artista explicita que busca “processar e trazer sentido ao isolamento, aos dias e ao tempo, ao medo de adoecer, do invisível, de desacelerar a vida e olhar para si e para a morte”. Assim como nos outros bordados, a sutileza dos detalhes é eloquente nas texturas minuciosas de pequenos pontos, na inserção cirúrgica de algumas cores e nos ritmos das linhas definidoras dos desenhos. Nesta peça, o desalinho proposital dos pontos é um recurso para falar da instabilidade do presente e da angústia do encerramento. Tais ideias também perpassam as incompletudes dos objetos das séries Espera 1 e 2 (2020-2021) e Resguardo #1, #2 e #3 (2020), reverberando na peça Grades, em que, possivelmente, lê-se uma retomada gráfica das linhas de contagem do tempo, agora formalizadas como objetos de interdição da liberdade.
As obras A antípoda (2021) e Minhas janelas (2020) podem ser apreciadas como exercícios de alteridade, de fuga e, até, de expectativa. São referências concretas a algo que está ora em situação diametralmente oposta ao chão que pisamos, ora no exterior do recinto da casa. As figuras, humanas ou de esquadrias, ambiguamente podem aludir tanto à dualidade da artista e de seu alter ego, quanto ao outro que coabita.
Nas palavras da artista: “Elejo a cama, a casa, a rotina, os sonhos e objetos que nos relacionam a situações da memória recente, referindo-me aos obstáculos enfrentados na quarentena. Essa experiência individual com a separação da família, a privação social, os enfrentamentos emocionais junto à nova configuração de vida, o distanciamento, o pouco contato físico, bem como a nova rotina de estar restrito à casa em uma aparente segurança, de modo a ressignificar tais vivências”.
Assim, a dimensão do banal, do gesto mínimo da sobrevivência e da observação paciente de um tempo sem heroísmos dos bordados de Milena adquire uma potência cotejável a poéticas tão díspares como a melancolia minimalista de Morandi, as tessituras imbricadas de Bourgeois ou os enigmas solitários de Leonilson. O trabalho da artista exprime a suspensão do presente por meio de objetos reconhecíveis em qualquer âmbito doméstico, contém recorrências em torno da finitude e da liberdade, da relação com o outro e consigo mesmo, da intimidade paciente e da espera reticente. Talvez todos tenhamos nos tornado objetos-personagens estraçalhados, e os bordados de Milena devêm as escutas dos silêncios acumulados neste tempo demorado, da essência introspectiva fragilizada e dos territórios afetivos interrompidos em todos nós.
Alejandra Muñoz
Cartografias da incerteza – about Milena Oliveira’s embroideries
Alejandra Muñoz
Seams, fabrics and embroideries result from three operations with threads and fibers that, artisanal or manufactured, accompany the history of art and have been recurrent in the contemporary production. Sewing, with needle and thread, presupposes the linking of different parts of fabric, leather, bark or other materials. Weaving is the interlacing of threads or fibers forming a weave or fabric. Embroidery, that also uses needle and threads, builds with lines a shape on a fabric or other material support. Any of these techniques offers an ample spectrum of artistic possibilities.
Milena Oliveira began her artistic research in 2010, combining drawing, ceramics and photography. From the interchange between graphic matrixes, the appropriation of familiar objects and registers, the artist has improved a script with needles in the transferring of images to paper and clay supports. In her most recent works, carried out between 2020 and 2021, she has developed daily life writing through small dimension embroideries with brief watercolor insertions, which reinforce a sense of transparency, delicacy and frailty in a context at the same time personal and universal.
A brief digression from Milena’s poetic trajectory is required to appreciate different aspects of her recent production. In her first series of works, Relicários (2010-2011), in which she explored the material fusion of personal objects (some of them organic) with modeling in clay, the artist defined a piece that she named objeto-personagem (character-object) – it was like a pill, with no arms, with three legs and a wrapping around its body. It was a new reality that, chemically, kept a memory of its origin, but visually and materially could not return to the forming elements before the fire. There was a conscience of the materiality destroyed in favor of the construction of something new that fed from a tangible memory, but burnt and disintegrated.
Next, the artist’s research progressed to objects deriving from a double process: on one hand, the physical division of the character-object in two smaller objects, and, on the other hand, the engraving of surfaces through the sgraffito of existent images and the transposition of family photos. Despite the suggestive names of the works, the process once more conjugated, in an ambiguous way, the actions of purifying and remediating the memories. In the following series of writings in Japanese paper, the image diluted in illegible words that rescued memories through drawing, established a new non-verbal narrative.
In the resumption of the stylized ceramic support, Milena broke the character-object once again to configure smaller niches, that is, the idea of the shrine, then, as fragment of a bigger casing. While the artist continued to develop illegible writings and fusion process of familiar images, in an introspective way that didn’t leave openings to any invasive relationship with the observer, the persistence of the shape of the character-object became more and more unstable. Finally, in the photo-performance Abrir pedras (2017), Milena closes the cycle with the destruction of the character-object.
The artist’s entire work presents a clear leitmotiv of family memory. However, the process is less of memory perpetuation or construction of cult narratives and more of pain iconoclasm, of affirmation of the fugacity of living without any mystification of the past. Milena takes on the hard task of talking about the memory without making an anecdotal inventory of events. She uses the image dismantling any narrative of the circumstances of the remains of life.
Since March 2020, like so many people during the pandemic, the artist started to explore the private universe of her home. During social isolation and facing the impossibility of practicing ceramics and the laboratory processes inherent to her previous works, Milena started a new phase of artistic expression. After the slow and complex process of more than a decade of gestation and destruction of that character-object, the artist started working with embroideries and dislocated the ambit of family memories to the experience of a confined life.
Os últimos números e Risco (both from 2021) are synchronous works, an installation and a performance emerging from the despair at the height of the tragic Covid’s statistics. Both works could be a tribute to the ones killed by the virus, but, in their visual delicacy, affirm themselves as a necessary denunciation of the inoperativeness that marked the management of the pandemic in Brazil.
The works Na corrente, Não posso plantar o passado and Tempo Sonho Benzer (2021) articulate a presence that gets closer to the protagonism of the former character-object, now transferred to the bed, protected by diaphanous canopies. Line rhythms reveal the measuring of an uncertain time, that refers to the primal prehistoric marks and the days marked on the walls of prisons – in the pandemic, actually, all of us became prisoners.
The bed theme continues in Decifrável (2021), which can be read as the first test for the repertoire of Uma cama por dia (2020), saga that starts from this piece of furniture as incomplete structure until it constitutes a daily log of the bed. Again, the process of fragmentation of the character-object present in the series before the pandemic is evoked: in the works De vagar e A vida é boa (2021), the bed starts to be dismembered in its elements. Only in O que significa sonhar com cachorro? (2021) the reference to the dream dimension as intangible, but essential, element of the bed ambit appears explicitly.
In Deitar sobre o afogo (2020), the artist makes it clear that she seeks to “process and add meaning to the isolation, to the days and to time, to the fear of getting sick, of the invisible, of slowing life down and looking at oneself and death”. Like in the other embroideries, the subtlety of the details is eloquent in the elaborate textures of small dots, in the surgical insertion of some colors and in the defining lines of the drawings. In this piece, the intended misalignment of the dots is an expedient to talk about the instability of the present and the anxiety of the confinement. Such ideas also go through the incompleteness of the objects of the series Espera 1 and 2 (2020-2021) and Resguardo #1, #2 and #3 (2020), reverberating in the piece Grades, in which, possibly, a graphic resumption of the time measuring lines can be read, now formalized as objects to prevent freedom.
The works A antípoda (2021) and Minhas janelas (2020) may be appreciated as exercises of alterity, of escape and, even, of expectation. They are concrete references to something that is sometimes diametrically opposed to the ground we step on, sometimes outside home. The figures, human or of window frames, can ambiguously allude to the duality of the artist and her alter ego or to the other that cohabits.
In the words of artist: “I chose the bed, the home, the routine, the dreams and the objects that take us to situations of recent memory, I refer to the obstacles faced during the quarantine. This individual experience with family separation, social deprivation, the emotional challenges with the new configuration of life, the distancing, the lack of physical contact, as well as the new routine of being restrict to the home in apparent safety, to give a new meaning to such experiences.”
Thus, the dimension of the banal, of the minimum survival gesture and the patient observation of a time without heroism of Milena’s embroideries acquire a collated potency to poetics so different as the minimalist melancholy of Morandi, the interwoven tessitura of Bourgeois or Leonilson’s lonely enigmas. The artist’s work expresses the suspension of the present through recognizable objects in any domestic ambit, contains recurrences around finitude and freedom, of the relationship with others and with oneself, of the patient intimacy and the reticent waiting. Maybe we have all become shattered character-objects, and Milena’s embroideries come from the hearing of the silences accumulated in this slow time, the frail introspective essence and the affective territories interrupted in all of us.